quinta-feira, abril 25

a resposta não é uma resposta













Participante – Quando você nos diz para buscar a resposta da pergunta “Quem sou eu?”, nesse momento me ocorre que: se existe resposta, ela está na periferia. Então, como algo da periferia pode ser resposta para o que está além disso?

Não se trata de uma “resposta”. A questão vem a ser irrelevante, inclusive. A pergunta deve ser reconhecida como um dispositivo para apontar para quem você é.

O que você é, sim, está além da periferia ou do centro. A pergunta surge e você, imediatamente, olha para “quem você é”. Não passa por pensamento nenhum. Estamos falando da experiência da não-experiência.

Todo o condicionamento constrói uma visão ilusória a respeito de quem somos. Aqui, o nosso intuito está em ter uma visão direta, sem reflexos, filtros ou projeções. Tentar ver uma resposta, é estar olhando para fora. Ver aquilo que vê, é olhar para dentro. E é dentro que está a resposta.

terça-feira, abril 23

o fim da história do personagem inexistente


É preciso estar atento. Buda nenhum criou terapias, porque a terapia trabalha com uma entidade imaginária, pretende melhorar uma entidade imaginária.

Participante – Reforça o ego.

Sim, reforça. Mantém.

Participante – Então, de repente, vejo que nada tem fundamento.

Nada tem fundamento, nada tem sentido enquanto você não compreende a Verdade a respeito de Si mesmo.

Participante – Mas o que estamos fazendo aqui, então?

Talvez você esteja aqui para se dar conta disso. Estamos indo ao fim da história do personagem imaginado. Não fique parado no meio do caminho. Tenho certeza de que o que estou compartilhando não faz sentido para a maioria de vocês. A maioria ou não está pronta ou não vem ao caso que desperte. Mas, certamente, é inevitável que uma pulga se instale atrás da sua orelha. E, aos que estão prontos, bem vindos! Estão no "lugar" certo.

Porém, não esqueça: não estou interessado em melhorar ninguém. Aliás, tampouco proponho que você fique em silêncio.

Nosso encontro é mais radical, mais vertical. Você não tem como ficar em silêncio porque não tem "você" e o "Silêncio". Silêncio é você. Silêncio.

sexta-feira, abril 19

na sombra, luz

Osho diz: "Eu não estou aqui para ajudar os seus preconceitos, eu não estou aqui para ajudar as suas tradições, os seus condicionamentos. Meu trabalho consiste em demolir você completamente, porque somente quando você é totalmente demolido nasce um novo".

Quem é esse você que precisa ser demolido? Estamos falando desse eu que você pensa que é, mas que não é você. Você pensa ser algo, mas antes desse pensar, antes de qualquer ideia, antes mesmo do seu nascimento, qual era a sua face?

Ao contrário do que muitos pensam, estar diante dessa revelação não remove a sua responsabilidade a respeito de estar no mundo. Você se move no mundo, o que você vai fazer não o redime de nada. Você vai ter de lidar com as dores, com as alegrias, com os ups e com os downs que a vida oferece.

De nenhuma maneira Meditação vem a ser uma saída, uma fuga. Não fuja da vida, encare-a. Entre intensamente nisso que chamamos "vida" e faça o que precisa ser feito, o que quer que seja, o papel que lhe couber. Afinal você e a vida sāo uma e a mesma coisa. Entregue-se!

 

 

quinta-feira, abril 18

o oculto expresso: você é isso!

Você é o oceano. A ideia de ser uma onda é inadequada, causa separação. A ideia de separação é a causa do sofrimento. E o sofrimento gera a a busca pela felicidade...

A boa nova é que não tem felicidade. E sofrimento, tampouco. Você sofre porque deseja a felicidade, algo fugaz, que vem e vai. Atente para o fato de que também o sofrimento vem e vai. Nada fica. Então, por que buscar um e evitar o outro? Você já teve o melhor carro, e ele se foi. Já teve aquele grande amor e este também se foi. Essa é a natureza das coisas. Essa é a lei do periférico: ir e vir. Tudo aquilo que aparece, desaparece. Tudo aquilo que vem, vai.

Só uma coisa não vem nem vai, permanece. E nāo é uma coisa. É para Isso que quero que você atente. Descubra o que é Isso que fica. O que é Isso que nunca foi, nunca irá e não veio de lugar nenhum? Veja! É o momento de compreender essa linguagem que, até hoje, tem sido completamente oculta. É o momento de compreender todas aquelas – antes incompreensíveis – histórias Zen.

Você está sendo iniciado e agora não só compreende a nova linguagem como pode vivenciá-la no seu dia a dia. Você está em casa e isso está ficando claro. Chega de se confundir com os sentimentos, com o corpo, com a mente. Este é um momento em que é necessário que muitos saibam a respeito de Si, seja um deles. Saiba quem você é. Seja quem você É.

quarta-feira, abril 17

o mesmo agora, diferente, sempre

Chega um ponto em que você precisa parar de mentalmente construir objetos e desenvolver relações com os mesmos. Grande parte da sua atenção, da sua energia, está voltada às relações com os objetos. A mente está o tempo todo lidando com isso, esse, aquilo, aquele… Tudo o que ocorre à lente dos sentidos.

Viver a Consciência que você é, ser você, é ver que os objetos e, consequentemente, as relações são ilusórias. Tudo aquilo que você (pensa que) sabe não passa de flores no ar.

Eu aponto para qualquer objeto nessa sala e pergunto "O que é isso?" e a mente imediatamente tem um nome, uma história e uma relação desenvolvida para com este objeto. "Isso é uma cadeira. Esta cadeira é branca. Herdei uma cadeira igual a esta da minha bisavó e tenho muito apreço por ela". E, logo, a cadeira te leva à tua bisavó, que te leva a mais mil histórias…

Lá se foi mais uma chance de penetrar no mistério do agora, no não-saber. Já pensou como seria o mundo se você pudesse olhar para tudo ao seu redor, sempre, como se fosse a primeira vez? Porque assim o é, mas o condicionamento da mente nos rouba essa realização.

Suspenda o impulso de "saber" a respeito das coisas e relacionar-se com tudo através desse falso-saber. Isso abre um imenso espaço entre você e aquilo que você percebe – e esse espaço promove enorme descanso. Esse espaço deve ser aplicado, inclusive, em relação a este objeto "corpo" que é considerado pela sua mente como sendo você.

Esteja atento às relações propostas entre qualquer objeto – inclusive o corpo e a mente – e aquilo que percebe os objetos. Aquilo que percebe tem por habilidade apenas o testemunhar, sem nenhuma necessidade de envolvimento. Aquilo que percebe está antes do nome, antes da forma, antes da memória e além de qualquer história que possa ser contada.

sexta-feira, abril 12

o milagre de estar aqui


Os sentidos geram a noção de separação. Você abre os olhos, ouve, lembra... e logo aparece o outro, isso e aquilo. Romper com a ditadura dos sentidos é necessário. É preciso ficar claro que o mundo gerado pelos sentidos não é a derradeira realidade.
Observe o que acontece quando você dorme. O mundo desaparece. Desaparece o mundo, os seus problemas, o outro, você. É uma benção. Todos os dias você tem a oportunidade de "apagar". Se isso não fosse possível, 3 dias seriam suficientes para um colapso do sistema. As poucas horas de sono libertam você da falsa-realidade, da falsa-identidade.
Por isso é difícil acordar. Quando o despertador toca, você adoraria que aquilo não estivesse acontecendo. E é aí que se encaixa a nossa conversa. Satsang propõe que você desperte para o fato de que a realidade ditada pelos sentidos não seja a Sua realidade. Nesse sentido, acordar se torna um deleite. A vida acontece dentro de você, não há o que temer e todos os acontecimentos são vistos com maior distanciamento – sob a totalidade da Observação que você é.
No mundo regido pelos sentidos, as relações com os objetos causam cansaço. Você está sempre lidando com os nomes, as formas, as sensações, a imaginação. E lá se vai toda a sua energia... Agora, se você se mantém atento à Observação, sem dar nomes, sem catalogar tudo o que vê, tudo o que passa pela tela dos sentidos, você permanece vazio. Leve.
Portanto, dê uma chance para aquilo que há antes do construído, antes do criado, antes do conhecido, e veja o que acontece. Veja a vida passar por você ao invés de permanecer aí parado à espera de um milagre. O milagre acontece a todo instante. Abra os olhos e veja! É um milagre estar aqui. 

quinta-feira, abril 11

sem o drama, cadê o palhaço?


Nesse exato momento, feche os olhos por um instante e fique o mais quieto possível. Note! É vasto. Há uma presença silenciosa. Consciência. Consciência-não-objeto, consciência-não-coisa, incontível, ilimitada.

Tenha a coragem de ver. Isso é você! E está virgem, puro. Nada precisa ser aperfeiçoado. Você é perfeição. Não tem nada faltando, não tem nada sobrando. Veja. Não tem nada trágico nem difícil demais, apenas é o que é. Isso contém tudo.

Aquilo que acontece, vem e vai. Tenha coragem de ver a si mesmo não como uma entidade presa ao tempo. E sim como nada, ninguém  – no-body –, sem idade, sem forma, livre de dramas, livre de comédias.

Na verdade, você é o palco de qualquer drama ou comédia. Porém, incólume. Totalmente virginal. Você não precisa de reforma, você já está em casa: abra os olhos.

quarta-feira, abril 10

a quietude e a inteligência


É na quietude que as coisa acontecem, é na quietude que você fica inteligente. É na quietude que você sabe o que fazer. E como tem muito pouco a ser feito, fica difícil errar. Na quietude você sempre faz o movimento correto.

Um problema vem e te assombra, o que você faz? Se você fica quieto, se você nem mesmo o espera passar, se você nem mesmo se ocupa com isso, o problema some. A quietude, a Presença não oferece um ambiente adequado à evolução dos problemas. Eles simplesmente não sobrevivem. Nada fica.

Que o corpo e a mente tenham preferências, isso é indiscutível  – aliás, deixe-os ter. Isso não tem a ver com você. Inclusive as preferências são flexíveis, elas não causam sofrimento.

Isso me lembra uma historinha...

Mariazinha foi convidada para jantar na casa do Joãozinho. A mãe do Joãozinho, preocupada em agradar a convidada, no ato do convite, pergunta se ela gosta de brócolis. Mariazinha, prontamente, afirma gostar do vegetal. À mesa, a mãe do Joãozinho, feliz em oferecer um belo prato de brócolis, serve uma porção à Mariazinha e é surpreendida com uma recusa da menina.

        –  Não, obrigado!

        – Mas, Mariazinha, você disse que gostava de brócolis.

        – Sim, eu disse, mas não o suficiente para comê-los.

Não há sofrimento. Se você prefere comer brócolis, coma. Se não prefere, não coma. Mas não faça disso um problema nem para você nem para ninguém. Tenha o simples sempre em pauta. Se não come brócolis, coma outra coisa – "simples-mente".

E seja criativo! Há inteligência disponível. Se você aprecia subir montanhas e não tem condições para isso, faça um morrinho no seu quintal e "viaje" nisso. Não crie problemas. É tudo imaginação! Imagine-se no Himalaia de uma vez! Ofereça å sua mente aquilo que a deixe quieta. Quer seja um livro, um filme, uma corrida em volta da praça. Isso pode ajudar, pode fazer com que sua mente não crie tantos empecilhos acerca da quietude fazer parte da sua vida. 

terça-feira, abril 9

observar: a diáfana realidade do absoluto


Um dos pontos que sublinho no encontro que chamo de Experiência Zero é a eternidade da observação, o fato dela não ser perdida sob hipótese alguma. Você já se deu conta disso? Experimente agora: pare de observar e descreva o que ocorreu.

Participante – Vazio.

Vejo que a desatenção é realmente um atributo do ser humano. Acompanhe: se você observou que "vazio" ocorreu, como é que você parou de observar? Quem percebeu o "vazio", então?

Está implícito que a observação nunca deixa de acontecer. O que normalmente é descrito como parar de observar é aquele momento em que não existem pensamentos ou imaginação. O que relata um grande equívoco: o senso-comum pensa que a observação seja um atributo da mente.

Quando não há pensamentos, sensações ou qualquer tipo de imaginação ocorrendo, não significa que não haja observação. É possível haver lapsos de segundos sem pensamentos ou imaginação. Porém, nesse instante, você está observando a ausência de pensamentos. A observação é perene.

É isso o que você tem buscado e não encontra porque tudo o que você conhece, conhece através da mente. Estamos aqui para nos aproximarmos de uma realidade que há além do corpo, além da mente – Observação é a realidade do buda.

segunda-feira, abril 8

o azul e as nuvens de corpos separados














Quando você sabe que não sabe quem você é, você sabe quem você é. Aí, não se confunde mais, não está mais identificado com o corpo ou com a mente. O que estou compartilhando é que, se você percebe o seu corpo e a sua mente, você não pode estar dentro deles. A Consciência transcende o corpo – por isso há quem faça “viagem astral”, ou algo do gênero, porque quem somos está em todos os lugares ao mesmo tempo. Na verdade, não tem ninguém viajando, há imagem em ação, simplesmente está sendo visto o que pode ser visto, e para isso alguns organismos mais inclinados do que outros. Mas não tem ninguém viajando, não tem ninguém indo a lugar nenhum. Quero dizer, a viagem acontece em você, não com você. 

Se observar dentro da própria experiência, você vê que não tem como estar contido no seu corpo. Se fechar os olhos, o que você observa? Você observa que é maior? Maior de tal forma que não sabe onde termina, nem onde começa? Veja bem: se a Consciência está em todos os lugares, se a Consciência é tudo, onde os corpos estão? Tudo está dentro da Consciência. A Consciência contém tudo. Tudo o que existe é Consciência. Não tem nada fora da Consciência!

Não há peixe dentro d’água que esteja com sede. Você já viu um peixe com sede? Não. Porque a essência do peixe é a água, ele está ali, dentro d’água. Também é apenas uma metáfora quando falo que a Consciência contém o Todo. Não podemos pensar em termos de matéria, é apenas uma linguagem. O que quero que compreenda é que você não está contido no seu corpo, você transcende seu corpo e todos os corpos. Tudo está dentro de você. Não é dentro desse objeto corpo-mente, é dentro d’Aquilo que você verdadeiramente é.

Quando você realiza quem você é, o mundo da periferia se torna uma brincadeira – essa brincadeira a India chama de leela. Estar identificado com o corpo-mente é pura ilusão – a India chama de maya, a ilusão dos corpos separados. A verdade é que todos os corpos estão acontecendo dentro de quem você é, essa é a Essência de todas as coisas, a Consciência. Quando você realiza a sua Essência, cessa de ser quem você pensava e seu limite é perdido. Não há nada. Não tem espaço e não tem tempo. O que há, então? Apenas nuvens no azul...

terça-feira, março 26

quer queira, quer não: isso!


Observe: que perfeição você está almejando? Que perfeição é essa que colocaram na sua cabeça que você tem que encontrar? Essa perfeição não existe, ela é o seu único sofrimento. Você está tentando ser uma coisa que você não é. E é matematicamente impossível ser o que você não é. Você só pode ser o que você é, então pare de tentar ser algo que você não é.

Mas aí, diante de tal proposta, a mente reluta ao se deparar com um grande problema – apenas para ela. Pois tudo o que você tem feito, tudo que o identifica como uma pessoa, tudo aquilo que constrói a sua imagem de si mesmo, cai por terra, diante da Visão proposta em Satsang.

Na verdade, até mesmo a imagem do "buscador" há de ser entregue nesse fogo. E já pensou quanto investimento será queimado junto? Quantas tentativas e devaneios de crescimento... Tudo desaparecendo como fumaça.

No entanto, em contrapartida, ao contrário do que a mente pensa, ao contrário dessa noção egóica de que sua vida depende da sua mente, estamos aqui abrindo a possibilidade de que você possa descansar exatamente aqui, exatamente agora – onde você está, do jeito que você está, sem precisar mudar absolutamente nada, sem precisar chegar a lugar nenhum. Isso não é fantástico?

Tudo está perfeito do jeito que você é, nada precisa mudar, você é a imagem e semelhança da Consciência – que, por sua vez, é tudo. Isso para não dizer, a priori, que você é a própria Consciência, aqui e agora, quer você queira, quer não, quer você saiba, quer não.

Muitos já tentaram revelar isso e estou aqui tentando fazer o mesmo. Mas confesso que vejo grandes dificuldades. Teria sido muito bom que você pudesse ter resistido da mesma maneira em acreditar que você é o corpo, a mente, o nome, o tempo... Disseram que você é tudo isso e você simplesmente acreditou. Agora, tento mostrar que você é o Buda e você resiste, reluta contra essa Realidade. Uma luta perdida, cem por cento das vezes.

sexta-feira, março 22

uma dose de lucidez diária


A luz que você está buscando, vem de dentro. É voltando-se para si mesmo que você emana essa realização. Não busque na mente, não busque no corpo. O corpo é uma colônia de  bactérias e a mente é um templo de besteiras. Salvo algumas poucas palavras e meia dúzia de funções, tudo na mente é bazófia! 

Realmente vale a pena chafurdar nessa confusão que você chama de "você"? Remova a confusão e fique somente com o "você" puro – no mais simples e brilhante que há – um organismo redondo, que dorme, digere, evacua, sem nenhuma necessidade de interferência. Por si e em si.

Aceitar o que é, é o mesmo que ver que não tem "você". Somente quando não tem "você", existe aceitação. O "eu" – que se pensa – não tem a capacidade de aceitar, pois ele mesmo é puro conflito. Ilusão. 

Aceitação não é um ato, aceitação é a sua natureza em expressão. Por isso, descanse no seio do seu centro, descanse naquilo que você é, e veja a luz da aceitação resplandecer de dentro. 

Deixe de lado qualquer necessidade de exclusão ou inclusão, deixe as histórias de lado, abandone o ontem e o amanhã. E ajude os seus a realizarem o mesmo. Como disse Nisargadatta: "Você veio ao mundo chorando. Agora, pelo menos, saia dando risada". 

Não tem para onde ir. Não há em toda a História aquele que tenha saído vitorioso. A única chance de sair vitorioso é vendo a pequenez da mente em ação e resistindo à tentação de seguí-la como mestre. Pare de lutar, tome uma dose de lucidez, solte a mochila e "volte para casa". Relaxe. Aprenda a morrer um pouco a cada dia – isso é aceitação. 

quinta-feira, março 21

acorda: hora da aula, senhor diretor!


Uma mudança de paradigma é o que está sendo exigido agora, pelo menos.

Mais ou menos as onze horas da manhã, o pai chega e bate na porta do seu filho:

    – James, acorda! Você tem que ir para a escola.

    – Ah, pai! Não quero ir.

    – Mas, James, está na hora. Você precisa ir!

    – Pai, eu não quero! É muito chato. Eu odeio escola! E não aprendo nada lá.

    – James, você tem que ir para a escola! Primeiro: é o seu dever. Segundo: você tem quarenta e cinco anos de idade. E terceiro: você é o diretor! Acorde!

Você também não quer ir para a escola? Look: você é o diretor! A mudança de paradigma aponta justamente para este fato: aquilo que você pensava que era, se colocado de lado, uma outra proporção será dada à vida.

Mas o que acontece é que você não coloca a mentira de lado. Você põe um pouco e olha para ver se vai ficar tudo bem. O que você quer é ter lucro no final, o que você quer é que tudo fique bem – mas este "bem" é enredo da própria mentira.

A vida não tem como ficar bem. A vida é a vida. Ela não pode "ficar bem", porque ela está além das nossas idealizações. Ela não tem nem notícia de como você gostaria que ela fosse e também não tem como avisá-la. Ela acontece por si mesma. Portanto, Wake up!

quarta-feira, março 20

o cabide, o saco de arroz e o bindi na testa


Há muito tempo atrás, havia um mestre chamado Gettan. Dele veio essa história bem Zen. Apesar de relatar um contexto ininteligível para a atual cultura, compartilho mesmo assim. Se puder ouvir com seu coração, irá compreender claramente o que ele quis dizer.

Ele diz: "Existem três tipos de discípulos: aqueles que promovem o Zen, aqueles que mantêm os templos, e os que são sacos de arroz e cabides de roupa". O terceiro é o mais comum. É aquele que só enche a barriga de comida – por isso o saco de arroz – e se move como um mostruário. Incrível que ele tenha sacado isso há mil e tantos anos atrás, quando nem tinha Fashion Week, não é mesmo?

O que acontece é que ele se deu conta que ali haviam os discípulos que só comiam e carregavam uma roupa sobre o corpo, aqueles que ajudavam a manter o ambiente e aqueles que promoviam o Zen.

Obviamente, em certo momento você para de ser qualquer um desses tipos, e nenhum deles importa, mas – até que isso aconteça – veja onde você se encontra. Como existe na mente um estado ilusório de ser, o tempo todo você está migrando de um tipo para o outro. Volta e meia você cai nas armadilhas da mente, e volta. Cai. E volta.

É por isso que a simplicidade proposta em Satsang deve ser acessada e mantida corajosamente no seu coração – ou o mais próximo a ele que você puder. E é também por isso que aos mestres é dada uma dose infinita de compaixão. Ele está a sua espera. E de novo, e de novo, compartilhando o mesmo.

Portanto, você pode até pensar que sou mais um terapeuta que vai melhorar a sua vida, mas eu não estou interessado nisso. Todo o meu interesse está em despertá-lo para quem você é. Isso! E – já que você está aqui –  o convido a absorver este como o seu maior interesse também.

Não há absolutamente nenhuma outra coisa que importe mais do que acordar para quem você é. E eu sei que este é um diálogo difícil de ser empreendido, porque é terminal, porque a mente pensa que entendeu tudo. Mas, quer saber? Pouco importa o que a mente entende. Trazendo Gettan para o nosso contexto, note se você está simplesmente vestindo um novo uniforme, aderindo à moda das "batinhas" indianas e usando um bindi no "terceiro olho" ou se você dá suporte à proposta de entrar verticalmente na descoberta de quem você é.

segunda-feira, março 18

se não aqui, se não agora


















No encontro consigo mesmo, paciência é um ingrediente fundamental. Se a sua mente teve grande poder sobre a sua vida até esse presente momento, e teve, o acidente de estar ouvindo Satsang vem a ser um portal para ir além.

É certo que a mente não quer que isso aconteça e é por isso que há certa resistência. Portanto, esteja atento: de um lado, paciência. Do outro, paciência também. Quem propõe grandes metas é a mente. É ela que quer sempre estar em algum outro lugar que não o aqui e em algum outro momento que não o agora.

Aliás, é a mente que propõe que Satsang – assim como tudo o que existe – organize-se em um sistema de pensamento, um método de vida. Ela não se satisfaz com a simples proposta de que você já É aquilo que você está buscando – você já é a vida, em si – e é por isso que se torna impossível gerar qualquer sistema sobre isso.

Estamos diante de um mistério. Um mistério que dissolve todo o equívoco que tem sido agregado como sendo você, como sendo a realidade. O equívoco é a prisão que provoca o sofrimento. Satsang, o encontro com a Verdade, é a chave da suprema Liberdade. 

sexta-feira, março 15

o coração além do coração


Há muito tempo atrás – bastante tempo – eu não estava me sentindo de bem com a vida. Eu pensava: "Não pode ser só isso. Tem que ter algo mais. O que está faltando?" E abriu-se, ali, sem nenhuma razão aparente, um caminho, um chamado.  O chamado foi de tremenda simplicidade – e talvez por isso eu não o tenha atendido, primariamente.

O que vou dizer agora não é de um todo preciso – por isso, perdoe-me –, mas vem a elucidar o momento: a partir daquele instante, é como se eu tivesse passado por uma grande preparaçãopara ser eu mesmo. E levei tudo isso muito a sério!

O que ficou claro é que tudo o que eu fiz não me levou a nenhum lugar proposto pela minha mente. No final, o que encontrei foi Eu mesmo – e esse eu não é nada do que eu pensava.

A compreensão se deu em perceber que aquilo que eu estava buscando era aquilo que estava buscando. O fato é que, a partir daí, uma nova perspectiva surgiu; de tal maneira que hoje falo uma outra língua. Parece Português, mas não é.  E o melhor dessa nova língua é que não tem "quem" a compreenda. É preciso deixar de ser "alguém" para Ver.

Deixe-me explicar de outra maneira: a mente é mau entendedor. Dessa linguagem, o coração é um bom entendedor. Porém, mais fundo, deve ser percebido que a compreensão vai além até mesmo do coração. Olhe agora e veja onde você se encontra: se na mente, no coração ou além do coração. De onde estou olhando, você está além do coração.

A mente tenta compreender o que ela não pode compreender. Na verdade, a mente não consegue nem mesmo "entender" – e aqui faço um paralelo entre "compreensão" e "entendimento". A mente não entende. O coração, sim, é capaz de entender – é por isso que, para começarmos o nosso diálogo, o coração deve estar presente. Mas, ao final, além de tudo, a compreensão emerge do Ser, que reconhece a si mesmo.

quinta-feira, março 14

satisfação plena sob a tela dos sentidos















No agora, toda ação imediata é guiada pela atenção. Com isso, novas sinapses são formadas no seu cérebro. Quando a atenção é prioritária, novas sinapses – e, com isso, novas maneiras de se relacionar com os objetos – se estabelecem. Na verdade, se trata de um retorno. Esta é a dimensão por trás do mundo da mente, por trás do sonho.

O mundo todo segue numa mesma direção, agindo da maneira que foi programado a agir. Prove a essência do agora e veja que, imediatamente, se abre a possibilidade de um novo “você”, livre dos moldes provenientes do passado ou projetados no futuro.

Se chegou até aqui, se te interessa, a única maneira de acessar este ambiente é indo para dentroDentro, o que te guia não são as tradições ou os condicionamentos não-investigados. Dentro só tem o agora e o agora é uma aventura. No agora há satisfação plena sob qualquer que seja o movimento na tela dos sentidos.

Veja! Sempre que você se abre para o agora, ele se abre para você. E é criando intimidade com essa abertura que você pode estar no mundo de uma maneira desperta, livre. Em paz.

quarta-feira, março 13

a límpida não-humanidade do agora

















É, definitivamente, necessário sair do ambiente do senso comum, do mundo dos clichês, para compreender puramente a proposta que Satsang nos traz. As pessoas dizem que você deve ficar mais consciente ou que você deve ficar no aqui e agora... Veja! Sem subir – ou aprofundar – o seu nível de entendimento, você estará eternamente enredado em confusões mentais. A minha proposta, às avessas, é: tente sair do aqui e agora. Onde mais você pode estar, senão aqui, agora?

Em algum momento você terá que resgatar aquilo que está antes de qualquer concepção – seja ela qual for. Volte-se para isso e você estará livre, inclusive da humanidade – nesse novo ambiente, você não é mais um humano, é sobre-humano. Agora sua visão está límpida. Não existem deduções nem repetições a respeito de quem você é.

Trata-se de uma higienização mental. Osho brincava com isso... Ele dizia: “Querem saber se estou fazendo uma lavagem cerebral em vocês? Sim, estou. Vocês chegam aqui com a cabeça cheia de bobagens e eu os ajudo a limpar”. Então, é isso! Não se engane. Uma vez que o que você deseja é saber quem você é, não é possível manter o velho mundo, o mundo das repetições.

Pare um pouco e abra a porta do novo.  Mas, antes, saiba: o novo não cabe dentro da mente. Estamos falando do mundo além das concepções. 

segunda-feira, março 11

a repetição cega, o papagaio e o ver


É fundamental dar-se conta a respeito dessa questão: como a mente pode tornar-se consciente – ou consciência –  se ela é um mecanismo de repetição? Você não acha que está exigindo demais? Consciência, à Consciência. À mente, repetição. Note que, como um papagaio, ela simplesmente repete tudo o que viu e ouviu, tudo que aprendeu.

Você viu como a sua mãe reagia a um determinado acontecimento e, pronto, logo se estabeleceu o seu modo de reagir aos casos similares. Sem a menor brecha para uma nova possibilidade, sem qualquer investigação, você simplesmente repete, vive o mundo ditado pela mente.

Existe, claro, zonas mais sofisticadas deste mecanismo chamado "mente", tais como a matemática, a lógica e um certo nível da poesia, por exemplo. Mas, dentro da mente, tudo depende  da repetição básica do conteúdo, sem conteúdo nada pode vir a ser gerado. Portanto, não se engane e – principalmente – não exija da mente aquilo que não compete a ela lhe oferecer. Ver não lhe compete.

Você almeja uma mente consciente porque todo o seu mundo, tudo o que você conhece, é a mente. Salte fora dela – aliás, deixe-a em paz – e encontre a Consciência desperta, dentro de você. Comece por descobrir onde fica o dentro e os passos seguintes serão dados naturalmente, sem esforço algum. Sem mente. Veja!

sexta-feira, março 8

in consciência infinita


Participante – Tenho uma questão... Se eu ando numa rua, tropeço e caio, posso refletir que caí porque não estava consciente do meu andar? Há um tempo atrás assisti a um vídeo de Osho, em que ele dizia que toda tragédia, que todas as atrocidades humanas dependiam muito das ações inconsciente. Minha pergunta é: se eu tropeço e caio, foi em função da minha inconsciência ou estava escrito que eu deveria tropeçar e cair?

Estamos lidando com uma moldura de mente que é universal e, particularmente, inconsciente. Então, se todo o seu entendimento for fundado em cima dessa inconsciência, devemos concordar que você não pode ir muito longe. Portanto, vejo que essa sua pergunta é baseada em clichês, e não na  visão consciente de quem você é.

A princípio, gostaria que você se desse conta que Osho não é infalível, ele nunca propôs infalibilidade. Então as vezes o seu discurso atende em termos gerais, nivela por baixo, para que se torne acessível a uma maioria – o que foi de grande valor. Mas vale a pena você ir mais e mais fundo e encontrar, inclusive nele mesmo, a resposta para a sua pergunta.

Se você descola das palavras e fica com a presença que ele evoca, isso te faz refletir de uma maneira diferente a respeito da sua questão. Pois toda a comunicação é falha. E reforço: "toda". Por isso a proposta é que você assuma a responsabilidade pela investigação direta, consigo mesmo. Osho e todos os mestres são setas apontando numa direção, para dentro de você. Você pode seguir e encontrar, ou não. Sem assumir você mesmo a investigação direta daquilo que está sendo apontado, você fica preso na gaiola da sua mente, naquilo que você aprendeu.

Você me pergunta, na verdade, se aquilo que está acontecendo nesse momento da sua vida está acontecendo porque é seu destino passar por isso ou se você está passando por isso porque está inconsciente a respeito de quem você é. Este é um dilema que todos têm. E eu tenho para te dizer, nesse momento, que se a pergunta apareceu, se há a dúvida, então pode que haja inconsciência.

Agora, se você quer saber se a inconsciência pode gerar ações, a minha resposta é "sim". No entanto, estou muito curioso para saber o que você quer dizer com "inconsciência".

Participante – É eu não saber o que estou fazendo.

Isso significa que você imagina que haja um estado em que vai saber tudo o que você está fazendo. E é aí que está o engano. O corpo e a mente têm limitações. E dentro dessas limitações cabem alguns tropeços. Porém, o que deve acontecer é o seu deslocamento da identificação com aquele que tropeça para a identificação com aquele que Observa os acontecimentos. Se você é aquele que vê o tropeçar acontecer, que diferença faz a sua origem? O corpo vinha caminhando, o corpo tropeçou, o corpo se aprumou novamente, o corpo tornou a caminhar. E você simplesmente Observou todos esses movimentos acontecerem. Isso é Observar. E, na Observação, nada está acontecendo. Desapaixone-se pelos acontecimentos e entregue-se à Observação, infinita, aqui e agora.